terça-feira, novembro 30, 2021
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Caminhos alternativos para o transporte de passageiros

HomeREVISTA TRANSPODATA – Ano XIII – Julho 2020 – Edição 79CapaCaminhos alternativos para o transporte de passageiros

Uma das medidas adotadas pela Mercedes-Benz ao longo da pandemia do coronavírus foi criar condições para que os clientes seguissem adimplentes. Ciente de que a maioria dos empresários do setor de transportes de passageiros apurou queda média de 75%, a montadora, por meio de seu braço financeiro, negociou carência de pagamentos de três meses para CDC e de seis meses para Finame, bem como taxas de juros. “Fizemos isto para mantê-los adimplentes dentro do sistema de transporte”, destacou Walter Barbosa, diretor de Vendas & Marketing Ônibus da Mercedes-Benz, participante do painel de encerramento da segunda temporada do projeto Notáveis do Transportes, iniciativa da TranspoData em parceria com a Revista AutoBus e Praxio. Ele estimou que da carteira atual de R$ 5 bilhões, em torno de 80% dos clientes solicitou a postergação dos pagamentos.

O executivo também falou sobre a inserção da montadora no fomento de soluções construtivas para o sistema. Reconheceu não ser tarefa exclusiva da empresa, mas enfatizou o esforço próprio por meio de canais de comunicação para expor soluções que possam dar sustentabilidade ao transporte. Citou, como sugestão, financiamento por meio da Caixa Econômica Federal, através do BNDES, com carência de 12 ou 15 meses, para o setor passar por este período de pandemia. Algo, segundo ele, como o já existente Refrota.

A montadora ainda propõe como alternativa a adoção de política municipal para evitar que a indústria e o comércio tenham os mesmos horários de funcionamento, situação que hoje cria picos de locomoção e esgotamento da capacidade de transporte. O objetivo é distribuir o movimento ao longo do dia. “Hoje é preciso espaçar o número de passageiros por ônibus. E não adianta aumentar a frota, porque não haveria veículos suficientes, além de criar mais congestionamentos. Passados estes horários, os ônibus circulariam vazios, no popular, batendo lata, e tornando a operação mais onerosa”, justificou.

Da mesma forma, a marca é a favor de uma política federal em que o transporte individual financie o coletivo. Barbosa reconhece a importância do veículo particular, mas não o vê como solução para as grandes metrópoles.

Ele manifestou que a montadora vê como grande oportunidade o uso de aplicativos para a adoção do transporte sob demanda. Entende que o sistema agregará valor se utilizado pelos operadores regulares e assegure migração do transporte individual para o coletivo. “Não adianta tirar o passageiro do vizinho, porque não resolverá a sustentabilidade do negócio. Havendo regulamentação acreditamos na proposta”, reforçou.

O executivo anunciou que a Mercedes-Benz lançará, em agosto, a campanha Coletivo de Cuidados, que será veiculada em meios digitais e impressos, para expor à sociedade as tecnologias e ações de segurança sanitária que as empresas de ônibus e as encarroçadoras estão adotando para evitar a proliferação de vírus e bactérias. Dentre as principais medidas, citou sanitários com sensores, onde não há contato direto do ser humano com torneira ou com o própria vaso; materiais especiais nos tecidos e ar-condicionado com sistema de desinfecção. “Queremos demonstrar que é seguro viajar de ônibus, fazendo com que os clientes retomem o transporte”, enfatizou.

Mesmo com a crise sanitária, a empresa manteve a política de desenvolvimento de novas tecnologias, que serão apresentadas ainda neste ano. Dentre elas, motorizações mais potentes para proporcionar melhor eficiência energética, redução do custo operacional e da emissão de poluentes.

Desoneração tributária deve ser pauta permanente

A gestora de Marketing e Relações Institucionais do grupo UTIL, Sampaio e Brisa, e conselheira e coordenadora do núcleo de marketing e comunicação da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre (ABRATI), Letícia Pineschi, defendeu medidas de desoneração de tributos, em especial para o transporte rodoviário regular interestadual e intermunicipal de passageiros. Para ela, também é preciso manter a desoneração já existente sobre a folha de pagamento e avançar. “Se retirar agora será muito prejudicial às empresas”, frisou.

A primeira ação, no seu entendimento, deve ser no âmbito do ICMS, que pode chegar a 19% em alguns estados. Ela assinala que a sociedade está fragilizada financeiramente e com renda reduzida. Reconhece que o programa de auxílio emergencial do governo federal conseguiu dar um fôlego à população, mas pondera que ele tem data para terminar. “Essa fragilidade tende a permanecer por um bom tempo. Então, não adianta uma empresa investir fortunas em tecnologias se não tiver viajante em condições de pagar o valor da passagem”, alertou. Letícia destacou ser injusto que um sistema democrático como transporte rodoviário seja penalizado com impostos elevados, enquanto o aéreo, por exemplo, tem isenção do ICMS. “Este tema deveria ser rediscutido”.

Ela também defende como necessário um debate transparente acerca das malhas rodoviárias no Brasil. Na sua visão, não são lógicas as linhas de longas distâncias, ligando estados do Nordeste aos do Sul. Sugere estabelecer alguns pontos para conexão eficiente, rápida e estruturada para melhorar e distribuição da malha

Transporte clandestino é problema de todos

Para Letícia Pineschi, as discussões em torno de ações para melhorar o transporte de passageiros também precisam incluir o tema do serviço clandestino. Argumenta que é preciso uma fiscalização mais efetiva e integrada de todos os órgãos públicos envolvidos no assunto na medida em que considera o transporte clandestino uma sangria tributária e financeira. “Também é uma questão de saúde pública, porque não há respeito alguma a protocolos de biossegurança”, observou.

Ela reforça ser ingênua a visão do poder público de que proibindo a circulação do transporte regular, as pessoas deixem de se movimentar. “De um jeito ou outro, a movimentação ocorrerá. Seja seis pessoas dentro de um veículo, em uma van ou ônibus sem as menores condições de uso. Neste momento em que a população está financeiramente fragilizada, ela tende a criar laços com esse operador, que oferece para facilidade de um preço baixo, mas nenhuma segurança, menos ainda amparo em caso de acidente”, alertou.

Também condena a postura do poder público de repassar ao cidadão a responsabilidade da fiscalização do serviço. Entende que esta tarefa deve ser feita de forma integrada, envolvendo inclusive setores da segurança. “Todos devem contribuir na fiscalização e, principalmente, na conscientização dos usuários. Isto é tarefa de governo”, assinalou.

Integração como forma de recuperar espaços

CEO do Grupo CSC Transporte e Logística, Roberto Santana entende que, antes mesmo da pandemia do coronavírus, o setor de transportes já passava por situação crítica. Ele recordou que nos anos 60 e 70, o ônibus era o mais usado e democrático meio de transporte, pois o acesso a outros modais era mais difícil. Diante desta situação, não havia problemas de fechar as contas no final do mês.

Com o passar do tempo, os demais modais evoluíram e tiraram espaço dos ônibus. “Continuamos os mais democráticos, porque somos os únicos, por uma questão de infraestrutura, capazes de atender as maiores cidades. Mas é preciso reconhecer que deixamos de ser o mais confortável ou de mais fácil acesso. Isso nos colocou nas cordas”, avaliou. Afirma que, mesmo com a chegada de outros modais, mais confortáveis e eficientes, a grande massa de usuários ainda seguirá no transporte de ônibus, embora uma parte considerável já tenha migrado.

Ele critica a postura de empresários que ainda veem as tecnologias como inimigas, enquanto os demais sistemas cada vez mais investem em inovação. Cita, por exemplo, a dificuldade muitas vezes imposta ao usuário para fazer a recarga do seu cartão. “Tem casos em que é preciso pagar um boleto para fazer a recarga”, assinalou.

Considera importante o transporte sob demanda na medida em que não há mais espaço para o aumento das tarifas para atender as linhas deficitárias. “Temos de ser permeáveis às inovações e integrar conhecimentos, pesquisas e oportunidades até com um possível concorrente para estabelecer um modal comum”, reforça. Também entende como oportuno criar um microcrédito para facilitar o pagamento das tarifas. “O futuro pode ser tenebroso se não estivermos alinhados em um processo de amplia integração”, alertou. Santana defende ser necessário conscientizar o poder público da sua responsabilidade em reestruturar o sistema, pois é comum uma solicitação de melhoria na malha não ser aprovada.

Segundo semestre difícil

Para Roberto Santana, é difícil fazer alguma projeção futura em função das particularidades regionais e dos diversos setores em discussão. Ele se diz um pouco mais pessimista em relação à recuperação no segundo semestre, principalmente no transporte urbano. “Temos aí uma insegurança com respeito aos atos governamentais, principalmente de benefícios concedidos em função da pandemia”, avalia, citando as medidas trabalhistas de redução de carga horária e salários e suspensão de contratos. Para ele, será difícil a negociação com os sindicatos com o fim dos prazos dos benefícios concedidos. “Será avassalador para alguns sistemas de transporte e empresas, que operam em sistema único nos municípios, se não conseguirem equilibrar a questão com o sindicato”, projetou.

Cautela na tomada de crédito

A decisão de tomar um crédito junto a instituição financeira deve ser antecedida de um diagnóstico da real necessidade. “O crédito precisa ser consciente”, externou Nicolas Tingas, Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (ACREFI), ao alertar que a solução transitória pode virar um problema.

O executivo reconheceu que a pandemia está trazendo um grau de imprevisibilidade nunca sentida. Após o choque de abril, quando houve uma paralisia geral, a economia deu sinais de retomada, já alcançando, a partir de julho, melhora consistente. Mas admite que na área de serviços, onde se inclui o transporte, a reação está atrasada.

Ele destacou que o governo federal lançou linhas de crédito que não tiveram grande demanda num primeiro momento. Foi preciso alterar as garantias exigidas para o sistema fluir, tanto que algumas linhas se esgotaram rapidamente, tornando necessária uma renovação de créditos. “Temos uma alternativa do governo, mesmo que com algum atraso”, manifestou. Tingas aconselha que os empresários analisem a situação com realismo, pois a retomada será lenta. Letícia Pineschi reforça que, mesmo sendo difícil, este momento também pode servir para fazer um plano de negócios realista antes da tomada de um crédito emergencial. “Sei que é muito difícil projetar alguma coisa num cenário como este, onde insegurança jurídica também está muito presente, mas é importante avaliar a possibilidade”, acrescentou.

Também vê o momento como oportunidade para aprofundar temas como a governança. Para ela, essa questão precisa compor esse plano de negócio. “Isto é muito importante, porque traz segurança para a organização. Se não tiver o objetivo da perpetuação do negócio não dá para assumir compromisso de crédito”, ressaltou.

Cartão para fidelizar clientes

Analista de projetos de inovação da Planalto Transportes e Muviflex, do Rio Grande do Sul, Giana Dal Ponte avalia que o pior momento da pandemia já foi superado, embora ainda seja difícil projetar quando a retomada será efetiva. Acredita que com o retorno das aulas presenciais e a chegada do verão o movimento de passageiros crescerá naturalmente, possivelmente a partir de setembro. Afirma que, após o tombo de abril, o movimento foi voltando gradualmente.

Ciente das dificuldades financeiras dos passageiros, a Planalto criou o primeiro cartão de crédito do setor rodoviário. Denominado Muviflex, é concedido inclusive para clientes negativados para assegurar que viagem. Lançado em abril, já recebeu mais de 1 mil solicitações e 300 pessoas já compraram mais de uma vez com o cartão. “Percebemos no cartão uma oportunidade de manter os passageiros conosco”, frisou Giana Dal Ponte.

Participou, também, do último episódio da segunda temporada da série “Notáveis do Transporte, o CEO e Co-Fundador da Praxio Valmir Colodrão (veja entrevista Top View nesta edição).

Confira todo o debate, de forma mais detalhada, no canal do Youtube da TranspoData: https://bit.ly/transpodatapremium

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